terça-feira, 17 de março de 2009

da solidão.

Tenho certeza que venho fugindo dela a minha vida inteira. Sou a solteira menos conformada que qualquer pessoa irá conhecer: desafio-os a me mostrar uma pior. Só que ultimamente a tal da solidão anda me segurando pelos calcanhares, querendo me mostrar que eu nunca estive só, pois ela sempre esteve comigo, e já se materializou como um traço da minha personalidade.
Como eu já comentei com algumas pessoas que me questionaram como era morar só, afirmo que, acima de tudo, é a arte de tolerar a si mesmo; descobrir todas as manias ridículas que te formam e, ainda assim, se suportar. Todas as nuances advindas das diferentes formas de solidão são um aprendizado, e já experimentei boa parte delas.
Não estou aqui me lamentando, dizendo "oh, estou só e assim morrerei", mas corro este risco agora com o coração tranquilo. Não que eu ache que será assim por toda a minha vida: acredito piamente que no meanwhile da minha vida tudo transcorrerá do meu jeito amalucado, contudo com os toques de normalidade, tais como a companhia de alguém por tempo(s) significativo(s). O fim, todavia - neste eu tenho certeza -, serei só. Se há algo que aprendi é que, apesar de termos amigos, família, namorado ou qualquer coisa que o valha, no fim das contas quem estará sempre contigo e ao mesmo tempo é o teu pior e melhor inimigo, és tu. E nada mudará isso. Nasceu sozinho? Assim será tua morte. Talvez, por um acaso que não cabe aqui discutirmos, alguém morra contigo. Mas te garanto: a dor é só tua. No ataúde só te cabe.
Não tenho no sobrenome, mas me descubro uma Buendía, tal qual García Márquez descreve. E pode até ser drama ou fatalismo meu, mas me imagino exatamente como Úrsula, envelhecendo junto de gerações e gerações, e ao mesmo tempo observando a solidão de cada um e a minha, unidas em uma só tragédia (ou beleza?). Um presságio me avisa, por mais que eu não queira que ele aconteça, que eu morrerei velha e tendo como única companhia minha implacável solidão. O que me resta é entrar numa convivência pacífica com ela. E quando releio esse texto, na minha cabeça soando todos as letras "s" e "t"s das palavras bem acentuadas como só uma paraibana é capaz de fazer, persisto na minha teimosia de ser feliz apesar de, por mais que, ainda que, acima de. Porque uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida é contrariar verdades que se mostram absolutas.

para todas nós

Ser mulher não se resume a sangrar todo mês.
É conseguir sentir emoções por todos os poros, ter um milhão de sentimentos acerca do mesmo fato ou da mesma pessoa, é tristeza alegre, alegria triste.
Não se limita a sentir dores, seja durante um parto ou uma crise de cólica, nem aguentar manhas dos homens que quase sempre se entregam perante qualquer dor - não os menosprezando, sem vocês nossas vidas seriam vazias, apenas valorizando a força feminina.
Não quero aqui ser feminista, até porque não é do meu feitio. contudo, senti a necessidade de expor um pouco o turbilhão de sensações que permeia uma mulher. Orgulho-me de ser dessa classe tão lutadora, que aguenta os preconceitos dos tolos que acham impossível alguém conseguir cuidar bem de si, dos outros e da mente. Que julgam improvável a existência de mulheres inteligentes, independentes e chiques. É ver nossas mães, tão competentes na tarefa de educar os filhos, serem vaidosas, cuidarem das casas e dos maridos, que nem sempre dão o devido valor, e perceber quão múltipla pode ser uma mulher.
O sangue que escorre todos os meses e as dores abdominais que aparecem ciclicamente talvez sejam nossa válvula de escape dos tantos sentimentos e percepções adquiridos e absorvidos durante o mês: talvez Deus tenha sentido pena de nos fazer sangrar todos os dias, e resolveu nos dedicar este inconveniente necessário apenas durante alguns. Apesar de todo o incômodo gerado, do nojo que eu sinto de mim mesma quando estou menstruada, é bom sempre ter em mente que aquilo nada mais é que a prova que eu sou fértil, e capaz de gerar outro ser. Existirá maior glória do que ser o receptáculo de uma nova vida que surge?
Ser mulher é, acima de tudo, sentir demais. Tudo dói, tudo é belo, macio, bonito, colorido demais, escandaloso. E o pior, retrair boa parte para conseguir ser alguém nos moldes pedidos. Quando algo explode, há o choque, o arrebatamento, uma supernova no universo escuro e sombrio. E aí que chorar pra uma mulher é algo tão natural. Seja em público, sentada no chão do banheiro, ou no frio intimidante da noite, engolindo as lágrimas.
Dedico tudo isto a todas nós, representantes da força motriz do mundo, o amor; e aos homens que respeitam e gostam das mulheres não por terem formas harmônicas, que aticem seus instintos e hormônios: aos que as veem como um ser igual a eles, porém com tantas sutilezas e formas de expressão que se tornam criaturas distintas. Este tipo de macho, tão raro, deve ser exaltado também, pois atinge mais uma cor do espectro, a que é visível somente pelos corações. (escrito em 20.06.08)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

poeta querido

Ao poeta, de tão sozinho
Tudo pouco se lhe importa
E por muito delicado
Faz um carinho na Morte.
(Vinicius de Moraes)
4 dias em Itapuã e o amor só me remetem a Vinicius. A Bravo! deste mês foi desenhada pra mim.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

gosto de sentir você bebendo da minha presença. é como se eu me embriagasse junto de ti, sem que necessariamente haja recíproca. eu não gosto de te observar enquanto eu estou sendo observada. aproveito cada milésimo de segundo deste momento egoístico de ser o centro das tuas atenções. cores, sabores, aromas, maciez de pele, as mínimas manchas. sendo decorada, radiografa, mapeada em cada sinal, sutileza, pêlo arrepiado, ruga, nesga, tamanho e dimensão. e prefiro ainda mais se essa admiração é silenciosa, embora definitivamente notória. agora posso te tocar sem te ver! será que devo ficar feliz com isso? ou estarei entornando sozinha o cálice cheio de meu próprio orgulho de achar que você gosta de mim? quero sentir-te tonto de mim, bêbado de mim, alcoólatra sem correção de todos os meus movimentos, atos, palavras e sentimentos, de modo tal que a vida te pareça menos feliz e mais preto-e-branco sem a minha presença junto a tua. um preto-e-branco entediante, e não o romântico de um filme antigo. que juntos completemos um todo que é só nosso, materializado não apenas com a presença, mas com a certeza do alinhamento dos nossos corações. pois tenho medo de viajar sozinha, meu amor, acreditando que você me acompanhará, mas só está um pouco atrasado.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

um texto azul

num fim de tarde fria nem um pouco semelhante com a de hoje, admirou o mar. E admirou mais ainda quando criou coragem e resolveu ser abraçado por suas ondas, peixes, crustáceos, terra, recifes.
Debaixo d'água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido, Só faltava respirar! Mas tinha que respirar
oceano de dúvidas, habitado por peixes-incerteza. Nadara, parando às vezes para apreciar o sabor salgado de quem pensa demais em golfadas maiores do que conseguia suportar. Nadara, num movimento ininterrupto de nem notar o que o rodeava. E, de súbito, lembrou. Uma baleia-azul, que nesse oceano se denominava Resposta, veio a seu encontro e, sem grande esforço, o soergueu à superfície, empurrando-o com o seu corpanzil descomunal. O céu, em todo o seu resplendor madrugal, parecia que sorria por vê-lo novamente. E, destarte o conforto de viver por decidir, admirou a realidade por algum tempo, antes de submergir novamente.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

palavras desconexas, conexas para mim

biblioteca mãos grandes de veias saltadas barba por fazer que não fura risos um barquinho no macio azul do mar Strawberry Fields Forever Órion perdida 3 Marias Salvador Almodóvar NOSSO, e não meu: não pode ser só L'Amourese Piazzolla celular livros iPobre estremecimento sono sonhos mais risos and I think to myself, what a wonderful world.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

coração

e a menina acorda mais uma vez atrasada para o compromisso que ela mesma criou. mas há algo de diferente naquele dia, que sussurra a ela que algo bom está por vir. então, contrariando seus costumes de alongar suas horas de quase-sono por mais algum tempo, ela se levanta, toma banho, se perfuma e leva seu coração à mostra por entre as ruas.
parece que o amor chegou aí
eu não estava lá, mas eu vi.
e o inesperado acontece: uma abelha pousou no gordo e aveludado coração vermelho, cravejado de pedrinhas, e ali depositou erroneamente seu mel, julgando ser sua colméia, sua casa, seu novo lar. Pura doçura.